sexta-feira, abril 29

A nova geração da arte (urbana)

Graffiti, uma mera representação artística, considerada por muitos um simples acto de vandalismo, por outros a forma de arte mais vanguardista e pura dos nossos tempos. E, depois, a geração que o pinta. A geração urbana, da arte urbana.

A verdade é esta: apesar de ser associada ao vandalismo, por ser desenhada ou escrita em paredes, edifícios e por todo o tipo de infra-estruturas visíveis, a dita arte urbana conseguiu criar um movimento, um pouco por todo o mundo, que já não era visível na arte contemporânea. Fez com que milhares de jovens se unissem por causas em que acreditam e que criticassem aquilo que consideram estar mal. A arte urbana fez com que o seu descontentamento e as suas alegrias fossem expandidos e chegassem a qualquer pessoa, fosse esta culta ou inculta, de classe alta ou de classe baixa.
E não é esse o objectivo primordial da arte?

Desde sempre que a arte foi utilizada, independentemente da forma artística, para nos fazer chegar todo o tipo de mensagens. Paz, terror, opressão e até amor, são sentimentos que, se olharmos com atenção, conseguimos detectar nas paredes que já ouvi dizer estarem “estragadas com gatafunhos” como simples acto de vandalismo.

Mas não confundamos vandalismo com protesto. E Arte é manifestação, Arte é protesto. Acho que sempre foi. E tenho a certeza que, todos os que se dedicam e dedicaram à arte urbana, apenas querem que a sociedade veja que os graffiti não são um atentado ao pudor, mas pinceladas de arte que alguém resolveu deixar por paredes e construções, para serem visíveis a todos a que a queiram interpretar.

Claro que até eu, que considero os graffiti das mais belas expressões artísticas alguma vez inventadas, acho que existem edifícios que não deveriam ser tocados, e claro que será sempre um argumento dizer que cobrir as paredes de spray apenas suja e dá um aspecto degradante. Mas será sempre esse o caso?
Várias Câmaras Municipais já criaram galerias de arte urbana pelas cidades, com o objectivo de conferir alguma legalidade a esta forma de expressão artística e, para atenuar aqueles que a consideram ser apenas uma ofensa à arquitectura das cidades, já existem Planos de Intervenção, como por exemplo no Bairro Alto, que consistem na recuperação de fachadas pintadas com graffiti e na distribuição de kits de limpeza aos moradores para manutenção posterior. Planos estes que prevêem que, em casos de flagrante delito, o infractor não vá a julgamento e que a infracção não conste do registo criminal, mas que fique depois sujeito à limpeza das fachadas.

Para todos aqueles que, independentemente de apelidarem os graffiti de arte ou não, criticam a forma como a arte é usada, pergunto isto:
Não revela uma mentalidade preconceituosa e antiga pensarem que arte é apenas desenho sobre uma tela?

E agora pergunto: será justo apelidar alguém que apenas se quer expressar de infractor?
Se somos tão vanguardistas, como é que é possível negarmos a evidência de que o objectivo não é estragar, mas emendar o que se acha que está mal?
Será que, se vários espaços fossem disponibilizados para esta forma de expressão, o argumento de vandalismo continuaria a ser válido, ou já seria visível a mensagem que verdadeiramente se quer fazer passar?

O quão estreita é a linha entre o que é aceitável e o que, verdadeiramente, deveria ser.

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